14 junho 2013

A diferença é que no inferno as grandes coisas do céu continuam presentes, mas, por temporária impossibilidade, a gente não consegue percebê-las.

Intrigado  com algumas coisas que ouviu, o menino perguntou ao avô enquanto caminhavam:
- Vô, no inferno tem passarinho cantando?
- Inúmeros. A perder de ouvido.
- Tem flor?
- Milhares e milhares delas, as mais lindas que podemos imaginar e outras tantas que a gente nem consegue.
- Tem mar?
- Muitos. Aliás, praias, conchinhas, ondas e surfistas também.
- Tem abraço?
- Dos melhores.
- E o céu fica todo azulzinho quando faz sol?
- Fica. Céu assim é tão bonito que chega até a comover, né?
- As pessoas amam?
- Amam. Gente é feito para amar, embora geralmente erre um monte de exercícios enquanto está aprendendo.
- Tem pipa?
- Á beça.
- Chocolate?
- É claro! Pode existir algum lugar onde não haja chocolate?
O menino silenciou por alguns segundos, a expressão dizendo um desconcerto dos grandes, muito maior do que aquele que mostrou no tempo da primeira pergunta.
- Ué, vô, eu não entendo.... Ouvi dizer que o inferno é tão ruim!
- E é.
- Mas se tem tudo isso...
- Tem sim, amado, as mesmas coisas do que céu que você imagina estão também no inferno. Todas elas.
- Então, é tudo igual?
- Não. A diferença é que no inferno as grandes coisas do céu continuam presentes, mas, por temporária impossibilidade, a gente não consegue percebê-las.

Ana Jácomo

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